quarta-feira, 19 de abril de 2017

De peito e guarda-chuva abertos

Ao alcance das mãos

Pálida nuvem

Deixou de ser vapor

O que ainda está sendo colorido

Alguém se atreve a chamar de amor?

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Para/Frase/Ando

Prezo

Pela frase própria

Mesmo que a língua

Ainda não esteja afiada

Mais vale a gaivota voando

Do que uma

Águia empalhada

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Da conta ao balanço

Têm erros que a gente não coloca gelo

E bebe

E teima

Entorna

Como se engolisse toda a sorte

De três

Em três

Goles

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Demoníaco bloco de notas

Nos encontramos no mundo da lua.

Tu, viajando na maionese.

Eu, pensando na morte da bezerra.


Nos alcançamos no pulo do gato.

Somos farinha do mesmo saco.

Colhemos flor que não se cheira.


Nos deitamos numa cama de pregos.

Nem tudo que reluz é ouro.

Do jeito que a gente se olha,

nesse mato tem cachorro.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Estação poesia

Mais prático

Menos lírico

Mais cínico

Menos sonso

Mais ácido

Sigo cíclico

Transformei-me em Outono

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Vade Mecum (Andar lado a lado.Frente & Verso)

      Arrume seu destino                              Juntos

                Faça as malas                       Sem ser posse

       Zarpamos hoje à noite                      Sem ter propriedade 

            Esqueça seu nome                        Donos do mundo

   Rumo ao anonimato                     Os dois pertencem ao livre arbítrio

                                                Mútua companhia para a viagem

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Entre pares (Basium)

O bom beijo

Precisa de ensaios

E muitos

E tantos

E vários

Não é feito só de lábios

Não é afoito

Universo desapressado

Avesso aos presságios

Não por acaso

O bom beijo

Precisa do outro

Ser

Beijado

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Trilogia da separação - (Ato I) Quando vai à Pique

P a r a   o n d e

P a r t e m

O s   b a r c o s ?

D e   o n d e   s u r g e m   o s   a m o r e s ?

G a i v o t a s - P a i x õ e s   v o a m

P a t o s - A m o r e s   n a d a m

A m o r e s

A m o r e s

A m o r e s   t a m b é m   n a u f r a g a m ?

Trilogia da Separação - (Ato II) Restos que vem do Mar

T e m   u m   n o m e

Q u e   n ã o   m o r r e

S o n o r o

S e   m o v e

M a r   e m   m a r é   c h e i a

C h u v a   e n c h e n d o   f o s s a

S o m b r a   e s c u r e c e n d o   a r e i a

V e n t o   e   m a r e s i a

F o r ç a   q u e   n ã o   c e s s a

C o n c h a   e c o a n d o   n o m e

N o m e   l o n g e

L o n g e   o n d e   a   b o c a   n ã o   a l c a n ç a

O   p o u c o   q u e   a   m e m ó r i a   t o c a

A   p é r o l a   q u e   o   t e m p o   m o l d a

A i n d a  s e  c h a m a  l e m b r a n ç a ?

Trilogia da separação - (Ato III) Endereço incerto

P r e s e n ç a

é

T o q u e


S a u d a d e

é

C E P

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Abra-se

Braços

Abertos

Abraço

Beijo de corpo inteiro

Abraço

Que contém outros abraços

Barco cheio de gestos

Braçadas

Invadem ilhas solitárias

Um abraço

Não basta

Desbrave

Abra-se ao abraço

Abrace

terça-feira, 30 de setembro de 2014

domingo, 15 de junho de 2014

Monocromática

A vida na cidade
Escoa
No vão das grades
Ressoa
Sob o som de alarmes
Ecoa
Na ditadura das paredes

A cidade infestada                          
Monólogos
Celulares
Caras amarradas

Há pessoas
Em toda
Parte
Chaves trancas câmeras

Olhares tristes
Nas vitrines
Nas calçadas
Nas sacadas
Pétalas sem cor

A cidade infestada
Rios de carros
Mar de placas
Greve de risos
Bocas fechadas

Doces rostos raivosos
Desvios de caráter
Atores de quinta categoria
Manto de fios
A vida finda
Cinza
A cidade fica

sábado, 24 de maio de 2014

Da mistura à ânsia

Começo calmo

Como quem lê bula de remédio homeopático

Como quem bebe água

Mas engole vodca

Tropeço no meio do raciocínio

Parece que bebo vinho

Lanço frases

Ergo taças

Discuto teses

Faço de conta a companhia

Solitário sorriso tinto

Encerro

Cogito elétrico

A resenha

O resumo

A crônica

O conto

Café feito agora

Termino louco

Vomitando palavras

terça-feira, 1 de abril de 2014

Para não repetir 1964

Abraça a causa
Ou faça
As malas
Alguém gritou em 64
Abraça a causa
Ou vai para a vala
Alguém gritou em 64
Abraça a bandeira
Ou vai para o pau de arara
Alguém gritou em 64
Siga as ordens
Ou levará choque
Alguém gritou em 64
Não incite o povo
Ou vai ter a corda no pescoço
Alguém gritou em 64
Apoie o regime
Ou será perseguido
Alguém gritou em 64
Obedeça a censura
Ou vai sumir da rua
Alguém gritou em 64
Nos muros
Nas faixas
ABAIXO A DITADURA
Para não repetir 1964 

quarta-feira, 26 de março de 2014

Fantasina

Durante a madrugada
Escrever sob o silêncio
Dos que ainda não acordaram
As prostitutas já contaram o dinheiro
Os jornaleiros sequer levantaram
Escrever sozinho no limbo desse horário
A prece apressada por sono
Fantasina que me consome

No silêncio subversivo
Revirar o passado pinçado a pá
Doce palavra escaldada
Sapo salgado a lágrima
Poesia erguida a coice
Verso cheirando a rosas
Espelho quebrado a sobro
Sílaba expelida a tosse
Caneta riscando sangue
Pinguins usando fraque
- Abaixe a voz fantasina
É muito tarde e todos dormem

No escuro mudo tateio
As pontas dos dedos
São mil olhos de mosca
O som do grilo torna-se o da onça
Madrugada carvão
Planos inflamáveis queimam no rubor da face
Amanheço junto às linhas confusas
Suspiro infla o frio na barriga
Merece cadeia quem inventou a insônia
Mesmo que tenha descoberto a rima

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Na porta do AA

Pileques na berlinda
cruzará está porta
firmará o pacto
manterá o corpo sóbrio
a garganta seca
não mijará mais nas calças
muito menos nas calçadas
não provará da maldita bebida
cessará o tropicar da língua
chega de andar alto
não trocará mais o passo
esquecerá a água que o pássaro não bebe
trégua ao teu fígado
estará extinto o hálito etílico
no teu copo
leite café mineral refri
ai de ti
que não resista
repita em voz alta
álcool
só no tanque dos carros.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Ocaso

Impassível
Engoliu o choro
O riso
Pés em raízes
Reteve a lágrima 
Cerrou os dentes
Tornou-se estátua
Olhar de gesso
Ar de gelo
Cara de paisagem
Incorporou o espírito do vidro
Quase invisível
Pura transparência da água
Sem som
Sem fala
Só silêncio
Vestiu o pôr do sol
Face a face com o horizonte
Todas as dores do mundo
Curvaram-se em sua frente

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Estatística em duas rodas

Dezessete da tarde

Sirene em ponto

Uma perna quebrada

Escoriações pelo corpo

Roupas rasgadas

Marcas no asfalto

Séria perfuração no baço

A pressa cobrou os olhos da cara

Até agora fechados


Dezessete e cinco

Massagem cardíaca

Junta a poeira da vida

O peito infla

O pulso não responde

A alma voa longe

Seu nome

Sem sorte

Vulgo óbito

Qualquer lugar a oeste

Corpo na maca

Avenida parada

Infeliz

Cidade

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Para apagar marcas

Reza a lenda moderna
Que é um fardo
Reler o poema romântico
Aquele de babar de sono
Rejeitá-lo até o último ponto
Talvez por ser antigo
Desencontro nas entrelinhas
Cheio de rebarbas
Lascas de frases desfeitas
Promessas inacabadas
Resquícios de batom na gola do título
Um leque de emoções rasgadas
Arrepiando pescoços
Espantando grilos

Reza a lenda moderna
Que nem toda
Reza é brava
Nem todo texto é prosa
Enquanto toda rosa é flor
Nem todo romantismo é amor
Dissabor também é preciso
Entre prosa
Flor e rancor
Será o poema verídico?

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mofo

Chaveiros e brindes
Medalha sem dedicatória
Canetas secas
Bilhete de uma paixão de inverno
A imagem de um santo
Recortes de jornais amarelados
Extratos do banco
O retrato do meu pai
Frases escritas na adolescência longínqua
Seres inanimados
Até agora resíduos
Jogados no fundo da gaveta
Ganham vida nas mãos da memória
misteriosa deusa às avessas

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

De Leminski à Marx


Fazia mercadoria

E a maioria saía
Tal a mercadoria que fazia

Fazia mercadoria

E a mercadoria que fazia
é a mesma
Que nos faz mão de obra vazia

Fazia mercadoria

E a mercadoria que fazia
Era carregada de ideologia

Fazia mercadoria

E fazia do trabalho
A pior alegria da família

Fazia mercadoria

E o salário
Não bancava a folia

Fazia tanta mercadoria
Que nesse poema
Tem excedente e mais-valia

 Inspirado no poema de Paulo Leminski, Fazia poesia. Livro Caprichos e relaxos - 1983.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Notícias do cativeiro

Mãe, o feijão não
engrossou o caldo,
acho que não
vai dar pro gasto,
e ainda falta
todo agosto.
O arroz não dá uma xícara.
A sopa é rala.
Os juros aumentaram.
A conta de luz está mais cara.
Apertei meu cinto,
o pão subiu de preço.
Na boca tem algo incomodando,
vai ver é o dente siso.
A água tem gosto estranho.
A pia continua entupida,
mas a vida segue escoando.
Meu colchão tem um buraco,
durmo agarrado
nas palavras, mãe,
troquei meu travesseiro
por um dicionário.
Aquela paixão antiga,
guardei num baú sem tranca,
por alguns dias
vou tentar ser eu mesmo.
Como pode notar,
continuo escrevendo.
Com esse poema mando notícias,
quanto aos meus problemas,
lavo minhas mãos,
mas e a água, minha mãe,
quem limpa?

terça-feira, 25 de junho de 2013

Lembra incenso

Denso mistério toca
a copa das árvores.
Nada cai do céu,
a não ser
que o próprio céu
                            D
                            E
                            S
                            A
                            B
                            E

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Coração. Endereço (in)certo

Passada a data comercial,
as flores foram para
o vaso com água.
 
A caixa de bombons
está pela metade.
As roupas devidamente guardadas.
 
Os presentes, enfim,
cumpriram o seu papel.
Passada a data comercial,
hoje, não custa lembrar.
 
Presentes podem ser em forma de palavras.
Assim, mando um milhão de beijos.
Que, nesse caso, o excesso não mata.

domingo, 9 de junho de 2013

Entre elas e o ofício

Tive essa ideia Lúcia
e Aline está,
a poesia Bárbara.
A Carla palavra
que escrevo,
uma Laura de Paulas.
Inspiração não Débora,
Ana logo,
Andressa do céu.
O poema criminoso
deixa Fátimas pelo chão,
mesmo que a Rita não seja
a Norma de parar.
Nessa Sílvia densa de versos,
aguço a Letícia dos olhos,
 viajo nas Andréias.
Marcela que vai dar certo?
Algo do instinto não Kelly que eu pare.
Thaís um bom motivo.
A Luana cheia ilumina a noite,
enxergo a Márcia do rio,
fico de Juremas e peço,
de todas as Marias,
que fique tudo as mil Marinas.
Ester à espreita.
Yasmim não me atinge.
Não faça essa Lara.
Com Bruna vontade não se brinca.
Vanessa se não quiser ler.
Antes Cíntia Verônica,
Érica conversa muito antiga.
Desse mal, quem mais Sofia?
Quem Camila comigo?
Chego as Veras do fim.
O que seria dessa Vitória
se eu não tivesse Edi?